Novos messias: comunidades terapêuticas se tornam empreendimento político de clãs familiares

Reportagem por Alice de Souza e Fernanda Santana

A Família Manassés – no registro civil, família Novais – chegou à Bahia em 2003. Marco Antônio Novais, o pastor Manassés, já havia fundado duas sedes da sua instituição, em São Paulo, primeiro, e no Rio de Janeiro, logo depois. “Era um lugar que eu vinha por causa da praia, das pessoas e acabei vindo para trazer a obra também”, lembra. Nos corredores da sede de Lauro de Freitas ou Salvador, ele é cumprimentado como “um paizão”, nos relataram internos e ex-internos. A comunidade terapêutica – entidades que estão cada vez mais recebendo recursos públicos para tratar uso abusivo de drogas sob o viés da abstinência total no Brasil – o tornou um dos políticos mais conhecidos da Bahia. A ele e seus filhos, Igor e Felipe, respectivamente candidatos nas eleições de 2020 a vereador de Salvador e prefeito de Lauro de Freitas. As casas de recuperação também projetaram outras famílias na política.

Os três, pai e filhos, formam um clã familiar na política baiana, história que tem se repetido ao redor do país. A obra – como costumam ser chamadas as comunidades – parece ter se tornado um caminho de ascensão a cargos públicos de filhos, esposas, parentes e até ex-internos. Em Pernambuco, por exemplo, a Família Collins, dona de outra instituição, também é representada na política – pela atual candidata à reeleição para a vereadora do Recife Michele Collins (PP) e seu marido, o deputado estadual Cleiton Collins (PP). O candidato à reeleição à Prefeitura de Olinda, Professor Lupércio (Solidariedade), tentou eleger a esposa, Cláudia de Lupércio, a deputada estadual, em 2018.

Pastor Manassés no lançamento da candidatura do filho, Felipe Manassés (à direita) para prefeito de Lauro de Freitas (BA). Foto: Reprodução/Facebook

A formação de clãs familiares políticos em torno das comunidades terapêuticas acolhedoras é uma derivação de um movimento iniciado com a aproximação da liderança dessas organizações com o Estado. Desde os anos 2000, explica a pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Priscila Farfan, esses espaços estão mais próximos do Governo Federal. “A construção da primeira portaria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o tema (RDC 101), em 2001, já teve participação dessas pessoas. Em 2011, com a resolução 29 da Anvisa, eles tiveram maior participação. Para fazer essa norma, o estado precisou dialogar, aí foram surgindo as lideranças políticas.” 

A aproximação com o Executivo aconteceu primeiro, depois com o Legislativo, com o lançamento do programa “Crack, É Possível Vencer”, marco do início do financiamento governamental desses dispositivos como locais de tratamento para uso abusivo de drogas. A mobilização para angariar os recursos oriundos do Fundo Nacional Antidrogas (Funad) assentou a chegada de lideranças de comunidades a cargos políticos nas várias esferas de poder, formalizada nacionalmente na Frente Parlamentar em Defesa das Comunidades Terapêuticas, em 2011. “É natural que as comunidades, uma vez adquirindo poder político e econômico local, queiram legislar os interesses a partir da eleição de representantes para os governos. A questão é que nem sempre a gente consegue fazer uma distinção entre o que é interesse público e privado”, explica o cientista político Marcelo Doudement, coautor do artigo “Frente parlamentar em defesa das comunidades terapêuticas”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

O interesse na articulação para visibilizar as instituições levou fundadores aos cargos público e, a reboque, familiares e os acolhidos. “As comunidades, antes de terem um reconhecimento do Estado, já têm uma reputação social positiva entre boa parte da população. Então, elas acabam servindo de trampolim político”, acrescenta Marcelo.  

Os clãs, vinculados também à religião, iniciam a escalada por meio de um empreendimento moral. Os motivos variam, mas o pretexto de “querer salvar vidas”, ao se transformar em interesse pelos financiamentos, pode ganhar uma conotação política, avalia a pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos.

Fonte: Ministério da Cidadania – Lei de Acesso à Informação (LAI)

Há casos em que o político, e sua família, já tinha trabalhos sociais e cria as casas depois da primeira eleição. Outros derivam da história da dependência química. Em comum, a comunidade é a argamassa da base eleitoral de candidatos com histórico dentro dessas comunidades. “Eu não me vejo como político, eu estou político para defender essa causa social”, diz Marcos Manassés. Ele foi vereador em 2012, eleito deputado estadual nas eleições seguintes, e, em outubro de 2018, teve 68 mil votos para o cargo de deputado federal. Não chegou a ser eleito, hoje suplente da cadeira de Charles Fernandes (PSD). 

O vínculo da família com a política, como afirma, foi motivado por uma “ausência do Estado” – um discurso que se repete. “Sabe por que eu acabei me envolvendo na política? É obrigação do estado e do município estarem nesses locais onde estamos e atingimos, mas nem sempre eles estão. Saí candidato para conseguir ajudar a instituição”, responde Manassés. Para o psicólogo e professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM) Fábio José Orsini, há um movimento “flagrantemente lobista” por trás da chegada de lideranças dessas comunidades ao poder público. “A destinação de recursos a esses dispositivos não tem fundamento na saúde, não tem argumento científico, não está amparada pela comunidade que discute o tema. É um crime de saúde pública”, defende.

A base eleitoral, como reconhece Manassés, são as mães e pais de filhos internados na casa – a maioria negra, 30 anos, em média, e pobres. Nos últimos cinco anos, ganhou também apoio de vizinhos e contemplados por outros projetos sociais da Instituição – como as escolinhas de futebol, que somam mais de 200 pelo país -, que deixou de ser apenas uma comunidade terapêutica e se tornou uma organização social. Como os passageiros dos ônibus são, em boa parte, moradores das periferias que saem para os centros urbanos a trabalhar, ali está parte do sustento econômico, político e social da comunidade terapêutica e das figuras por trás dela – pai e dois filhos. 

Os outros três filhos de Manassés, não tem envolvimento político – o mais velho, Marco, foi quem motivou o pai a abrir uma comunidade, depois de três internações por uso de drogas. “A gente conduz como família, com responsabilidade”, define Felipe Manassés, 35. Em 2017, Felipe se tornou secretário municipal da Juventude de Lauro de Freitas. Deixou o cargo para sair candidato a prefeito em 2020. Às 14h do dia 14 de setembro, num hotel da cidade, a candidatura foi oficializada. Seu pai, Manassés, participou da convenção. 

O Pastor Manassés mora em uma casa num condomínio de luxona região da Praia de Ipiranga, em Salvador. Um dos hobbies do pastor é a pesca esportiva. Os filhos costumam acompanhá-lo. Em feriados ensolarados, a família também costuma fazer passeios de lancha. Felipe é quase vizinho do pai, mora em um apartamento no bairro de Buraquinho, em Lauro de Freitas, com vista para o mar. Na vizinhança, quando tem folga, não é difícil encontrá-lo sobre um quadriciclo. O patrimônio de Felipe, segundo ele declarou ao Tribunal Superior Eleitoral, nestas eleições, é de R$ 600 mil. Seu irmão, Igor, que tenta uma vaga como vereador de Salvador, e compartilha com o pai a paixão pela pescaria, disse ter R$ 195 mil em bens – R$ 185 mil em espécie, para eventuais futuros investimentos.

Quando perguntamos a Felipe sobre a entrada da família na política, ele titubeou. “Quando você tem um trabalho social, fica com receio. A gente sabe que as pessoas têm um mau olhar em relação à política. Mas esse é nosso pensamento hoje, uma política humanitária, social, mas também com uma capacidade de administrar, de empresários, de líderes.” A família também é dona de uma construtora, uma exportadora, uma empresa de representação esportiva e um clube de futebol, o Cajazeiras Esporte Clube, fundado num dos bairro mais populosos de Salvador, em 2006. 

Os Collins: uma máquina de conquistar votos  

Cleiton e Michele Collins são, respectivamente, deputado estadual e candidata à reeleição a vereadora do Recife (PE). Foto: Reprodução/Facebook.

Daize Michele de Aguiar Gonçalves, a vereadora de Recife mais conhecida como Missionária Michele Collins (PP), pensa estar habilitada no “mundo espiritual” para buscar as pessoas do “mundo das trevas”. “Eu vou lá com a autoridade de Deus, arranco essas pessoas da mão do diabo e digo ‘Deus vai mudar a sua vida, porque ele mudou a minha”’, conta, após mais de duas horas de conversa, quando resgata toda a trajetória da família dentro da Comunidade Terapêutica Saravida e, depois, na política. Ela ocupa uma cadeira na Câmara de Vereadores e o marido, pastor Cleiton Collins (PP), é deputado estadual.

O casal é uma das principais forças políticas pernambucanas e tem uma trajetória vinculada ao crescimento das comunidades terapêuticas. O tripé que ampara a vida política deles é: a defesa de valores cristão evangélicos pentecostais (Michele esteve na mobilização pró-vida contra aborto em uma criança realizado no Recife, em agosto), a “luta contra as drogas” e a expressiva margem de votação que alcançam nos pleitos locais.

Cleiton é ex-dependente químico, caminho que levou a família, primeiro, à igreja evangélica, depois à política. Ele e a esposa dizem que, depois de buscar uma solução para os problemas pessoais e encontrar a religião, nos anos 1990, decidiram entrar na política para “ajudar” os outros. O primeiro foi Cleiton. Eleito em 2002 para deputado federal, no ano seguinte ele e a esposa criaram a Saravida, hoje com três sedes na Região Metropolitana do Recife e uma no centro da capital. Cleiton está no quarto mandato consecutivo. Em 2018, obteve a segunda maior votação do estado, com 106 mil votos.

Michele entrou na política 10 anos depois do marido, ao se tornar vereadora do Recife na eleição de 2012. Em 2016, ao tentar o segundo mandato, foi a mais votada do Recife. Nas eleições municipais deste ano, tenta chegar ao terceiro cargo público, com o mesmo jingle que consagrou as candidaturas do marido. Os dois também compartilham as mesmas pautas. Em sua página oficial no Facebook, Michele destaca como “missão” e bandeira número um da campanha 2020 o combate às drogas, à frente de temas como defesa da mulher, da família e dos acometidos por doenças raras. A história familiar de uso abusivo também serve de mote para vídeos da campanha. 

Michele mostra ser uma mulher vaidosa, o que fica evidente na quantidade de itens de maquiagem dispostos na mesa do gabinete, ao lado da papelada, mas que não se furta de andar com roupas básicas – seguindo a moda petencostal – quando está fora dos afazeres legislativos. É em um carro popular que se desloca entre o prédio anexo e a Câmara dos Vereadores. O patrimônio dela cresceu 74% desde que assumiu a vaga na Câmara, segundo dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O de Cleiton, cresceu 466% desde 2006. Entre os bens declarados por eles, estão três apartamentos, sendo um deles um imóvel de 234 metros quadrados a uma quadra da praia, no bairro de classe média alta Setúbal, Zona Sul do Recife – constante na última declaração de Cleiton. A lista também tem uma casa de praia, em Tamandaré, litoral sul pernambucano.

A Saravida, comunidade terapêutica fundada pelo casal, só consta uma vez na lista de pagamentos do Governo Federal, em 2017, com o recebimento de R$ 59.431,54, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI). Michele diz que foi uma decisão deles não concorrer a financiamento público. “Somos muito bombardeados, mas quem conhece nossa história sabe o que passamos para estar nessa cadeira. Decidimos não pegar recurso para provar que não há interesse político”, diz.

Em 2019, no entanto, a Saravida voltou a se cadastrar no Ministério da Cidadania para receber financiamento, de acordo com lista obtida pela Retruco via LAI. Michele diz que seria “egoísta deixar de compartilhar mais com a sociedade por falta de recursos”. Os dois não fazem mais parte oficialmente da diretoria da CT, em função da política, mas visitam com frequência – se puderem, todo fim de semana – as unidades. O cargo legislativo os afastou da prática, mas nem tanto. Os Collins pautam com frequência regulamentações para as comunidades terapêuticas, no âmbito local e nacional. “Conseguimos dar visibilidade, construir políticas públicas para o segmento”, orgulha-se Michele. 

Para ela, o lado ruim de ter entrado na política foi a “perseguição” sofrida pelos opositores. Mas há também o bônus, que não nega. “As pessoas votam e não é só um voto da política pela política, é um voto por entender que é importante o nosso mandato para continuar lutando por elas. É o voto da mãe que perdeu o filho para as drogas e reconhece que é importante alguém que dê visibilidade à causa dela.”

Denúncias de violação de direitos humanos não impedem ascensão de clãs políticos

João Isidório, filho de Sargento Isidório, com o pai e Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara dos Deputados, durante visita à Fundação Dr. Jesus. Em frente a eles, o porrete símbolo da violação de direitos humanos da comunidade. Fotos: Rafael Martins

Manoel Isidório de Santana Júnior, 58, carrega dois títulos que reverberam nas comunidades terapêuticas: é o Pastor Isidório – que quase sempre está com uma bíblia na mão – e o ex-sargento da Polícia Militar da Bahia – que também quase sempre aparece fardado, com um porrete na outra mão. Há 28 anos, ele fundou a Fundação Doutor Jesus, centro de recuperação de dependentes químicos, homens e mulheres, em Candeias (BA). Desde 2002, é uma das figuras políticas mais proeminentes da Bahia, hoje candidato a prefeito de Salvador. Seu filho, João Isidório, foi o mais bem votado deputado estadual nas últimas eleições, alavancado pelo pai. Em 2019, a comunidade terapêutica – que nunca constou na lista de financiados pelo Governo Federal – tentou cadastro para receber verba nacional.

O pastor-sargento Isidório tem sete filhos e costuma se apresentar como ex-gay e ex-drogado – declarações que repercutem, vez ou outra, em todo o país e o tornam conhecido pela excentricidade. Na campanha de 2018 para deputado federal, uma parte do jingle dizia “agora é a vez do doido”, menção a Isidório. Como o pai, João, frequentemente carrega uma bíblia, que também ergue durante discursos políticos ou pregações. Seu nome chegou a ser cogitado como candidato a prefeito de Candeias, onde fica a sede da Fundação Doutor Jesus, mas o projeto não foi levado adiante e João é coordenador da campanha de Isidório, o pai, figura conhecida nacionalmente pelas excentricidades. 

No Carnaval de Salvador, Isidório também costuma – ou costumava – aparecer com um porrete na mão e a bíblia na outra, vestindo terno, com uma fileira de internos no seu rastro. O filho se apresenta – nas redes sociais, por exemplo – como Pastor Isidório Filho, cristão, cantor, casado e pai de Hillary. 

A entrada do ex-sargento na política aconteceu em 2002, quando, convidado pelo PT, saiu candidato a deputado estadual e foi eleito com 44,5 mil votos. Em 2018, foi o deputado federal mais bem votado da Bahia, com 323 mil votos. Entre os bens declarados por Isidório nas eleições 2020, está uma casa residencial em Candeias, no valor de R$ 110 mil. Ele não quis dar entrevista, depois de ser informado do tema da reportagem. Disse, via assessoria, que “não tinha interesse”. Naquele mesmo dia, Isidório havia participado de duas reuniões – uma com a equipe de campanha, outra com apoiadores – e deu uma entrevista a um jornalista. 

Em 2017, a antropóloga Sheila Brasileiro, do Ministério Público da União (MPU), visitou a Fundação Doutor Jesus, depois de uma denúncia de maus-tratos. Ela entrevistou Isidório e participou de um culto, a convite do pastor sargento. Durante a celebração, viu internos ajoelhados e perguntou o porquê. A resposta foi que eles estavam “pagando pelo mal”. “Ele se baseia no esquema militar. E também tem a coisa de nove meses, que também é um período de nove meses, como um renascer. Eu não presenciei nenhum castigo, mas Tereza estava lá.” Tereza, o porrete, frisa a antropóloga.

Dentro de instituições como a Fundação Doutor Jesus, a antropóloga acredita que os direitos dos internos são invisibilizados. “O Estado financia a existência, mas não quer estar lá para saber como é feito”, opina. O relatório sobre o que viu na Doutor Jesus, por exemplo, não resultou em futuros procedimentos jurídicos contra Isidório. Na campanha eleitoral deste ano, Isidório divulga sua fundação como pautada na técnica, com psicólogos e psiquiatras. Até pouco tempo, se orgulhava que o tratamento era feito na base da fé e da disciplina. É uma mudança de imagem causada pelo propósito político, acredita Sheila. 

Um propósito que, por outro lado, é alavancado pela própria imagem de donos de CTs, vistos como salvadores, messias. “Isidório, lá dentro é visto como um Deus, uma autoridade, um curador. Essa imagem de salvador tem tudo a ver com a política. Qualquer pessoa que faz algo que é considerado benefício é visto como possível candidato”, completa. São líderes que oportunizam um “nascer de novo” – o tratamento também dura nove meses, o tempo de uma gestação – que requer demover a identidade, e às vezes, a honra e dignidade do sujeito, finaliza Sheila. 

Políticos se cadastraram para receber verba federal no ano anterior à campanha eleitoral

As comunidades terapêuticas vinculadas a Manassés, Isidório e os Collins solicitaram cadastro junto ao Ministério da Cidadania para tentar financiamento público federal, a um ano das eleições, em 2019. A Retruco obteve por meio da LAI a lista das entidades já foram cadastradas e revela que figuras conhecidas por exaltar as CTs que nunca antes conseguiram verba federal, agora estão cadastradas e poderão solicitar o repasse. Manassés é um deles. Atualmente, o Ministério da Cidadania, por meio da Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas (SENAPRED/MC), tem ume dital em fase de análise de propostas. 

A Instituição Manassés não consta na lista de pagamentos realizados desde 2013 pelo governo federal. Em 2019, entretanto, foram solicitados cadastros de oito unidades da instituição para receber financiamento público, sendo cinco delas no Nordeste. Dessas, as unidades de Feira de Santana (BA) e Fortaleza (CE) foram cadastradas, enquanto as unidades de Teresina (PI), São Luís (MA) e Jaboatão dos Guararapes (PE) estavam, até abril, com pendências para finalização do cadastro. A Manassés também solicitou o cadastro das três CTs localizadas em Abolição e Campo Grande (duas unidades), no Rio de Janeiro. Por meio do governo baiano, a entidade já recebeu R$ 2,5 milhões desde 2015.

Fonte: Ministério da Cidadania – Lei de Acesso à Informação (LAI)

A Saravida, instituição ligada a Michele e Cleiton Collins, também consta na lista de cadastrados, como anunciado pela própria Michele acima. As unidades de Paulista, Vitória de Santo Antão e Recife obtiveram o cadastro entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020. Já a unidade ligada ao pastor Sargento Isidório, a Fundação Doutor Jesus, que também não consta em pagamentos realizados nos últimos sete anos pelo governo federal, estava com pendências para concluir o cadastro até abril.

Caso venham a receber dinheiro público, essas instituições entram em um rol cada vez mais frequente, o de instituições terapêuticas vinculadas a políticos que recebem do Governo Federal para atuar. O Ministério da Cidadania afirma que financia 97 instituições e 2.469 vagas no Nordeste. De todo o dinheiro aportado pelo Governo Federal em comunidades terapêuticas da região desde 2013, 10% foi destinado a entidades fundadas ou vinculadas a políticos e pessoas que já tentaram cargos públicos. Um levantamento realizado pela Agência Retruco, por meio da LAI, mostra que entre os anos de 2013 e 2019 foram destinados R$ 87,2 milhões para CT na região. Desse valor, R$ 9,2 milhões foram para comunidades de políticos. 

Além dos já citados, outros que já receberam dinheiro público do governo federal antes estão com as comunidades cadastradas para poder voltar a receber. É o caso de Michele e Cleiton Collins e do Capitão Samuel, deputado estadual em Sergipe. Essa lista também inclui aqueles que tentam eleição ou reeleição neste ano: caso da própria Michele Collins, e de Delmah Pedra, candidata a vereadora da cidade de Barreiras, na Bahia. 

Ex-internos S/A: de acolhidos a candidatos políticos

Imagem de candidatura do primeiro interno da Manassés a vereador, no Rio de Janeiro, em 2020. Foto: Reprodução/Facebook.

Aos 13 anos, Douglas fumou maconha. Aos 14, cheirou cocaína. Aos 27, viciou em crack. “Quando fiz 21, tomei dois tiros no abdômen numa boca de fumo e fiquei internado. Já saí do hospital, uma semana depois, procurando droga. Foram sete dias sem dormir”, lembra Douglas Marques Correa, um jovem de família evangélica, moradora de Itaquera, bairro da zona norte de São Paulo. Ele foi o primeiro interno da Instituição Manassés, em 1997. Hoje, aparece em fotos acompanhado de políticos, como o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, é coordenador de Cuidado e Prevenção às Drogas da capital fluminense e candidato a vereador. Não é mais Douglas Marques Correa. “Sou Manassés”, apresenta-se.

O paulista conheceu o pastor Manassés, ex-deputado federal na Bahia, em casa. Chegava depois de uma semana na rua, recém-saído daquela internação no hospital. Encontrou o pastor e a mãe, evangélica, conversando. “Ele contou do centro de recuperação e que estava me dando uma chance. Eu aceitei.” Seria a sexta das nove internações de Douglas para tratar a dependência química. Dentro da Manassés, recaiu três vezes. Na última, o pastor disse que se recaísse, não teria mais ajuda. “Eu fiquei e permaneci lá por mais de 20 anos, trabalhando.”

A história de Douglas e sua entrada na vida política são reveladoras quanto à ligação entre as comunidades terapêuticas brasileiras e a política. Somente em 2020, a Retruco identificou sete políticos fundadores de comunidades terapêuticas que tentam eleição ou reeleição a cargos municipais: Delmah Pedra, como vereadora de Barreiras (BA); Pastor Sargento Isidório, prefeito de Salvador (BA); Professor Lupécio, prefeito de Olinda (PE); Michele Collins, vereadora do Recife (PE); Wagner Farias, candidato a vereador de Maranguape (CE); e o Igor e Felipe Manassés, respectivamente candidatos a vereador de Salvador (BA) e prefeito de Lauro de Freitas (BA).  

A construção de lideranças políticas a partir das comunidades estende-se também aos acolhidos. “Existe um processo desde o tratamento, no qual eles são irmãos de caminhada, e se encontram após. Alguns abrem unidades, inclusive. Isso vai construindo uma carreira de representação, formando lideranças e alguns se tornam candidatos”, explica a pesquisadora Priscila Farfan, ao mencionar ex-acolhidos em cargos de vereadores, senadores, etc. 

Douglas passou por todas as etapas. Quando interno, acordava cedo, recebia uma “palavra de incentivo do pastor”, participava de cultos e, logo depois, começou o trabalho de vender canetinhas nos ônibus em troca de doações à Instituição. Uma tarde, ainda em 1997, depois das recaídas, Manassés contou a Douglas que abriria uma nova unidade da comunidade, no Rio de Janeiro, e perguntou se não o interessava a mudança. “Já se começava a perceber que quando tirava a pessoa da cidade, ela se adaptava melhor à recuperação”, diz. Ele partiu para o município vizinho, onde vive até hoje.

Desde então, Douglas evoluiu nos cargos e co-fundou 15 unidades pelo Brasil. Em 2012, Pastor Manassés se afastou da Instituição – oficialmente – para sair em campanha a vereador, em Salvador. “Assumi a presidência da instituição e comecei a aprender ainda mais”, lembra Douglas. Começava a transição de Douglas Correia para Douglas Manassés. “A gente tinha como referência maior o deputado Manassés, a gente viu que tinha um reconhecimento muito bacana na Bahia e isso me motivou a seguir os caminhos dele”, explica. Nas eleições de 2016, já Douglas Manassés, lançou-se candidato a vereador pela primeira vez. Durante a campanha, foi apresentado a Marcelo Crivella pelo baiano, ex-pugilista e deputado federal, Popó. Derrotado nas urnas, Douglas foi chamado para integrar a equipe de Crivella como coordenador de cuidado e prevenção às drogas no município.

Na campanha deste ano, nem sempre se apresenta com o primeiro nome. Às vezes, é só Manassés. Alcunha enquadrada dentro do mesmo slogan da comunidade terapêutica, o sol amarelo e laranja que também está nas campanhas dos outros Manassés. “Se queremos um futuro melhor para nossos jovens, vamos ajudá-los a não entrar no mundo das drogas”, diz Douglas num dos vídeos de campanha. No Rio de Janeiro, Douglas se casou e teve três filhos.